Assusta-me a maldade gratuita e despropositada. Assusto-me com a necessidade que certas pessoas sentem de infligir dor e sofrimento a terceiros apenas como tentativa de expurgar a sua própria dor. Tenho medo das invejas, dos pensamentos mesquinhos, da mediocridade do espírito e da avareza de sentimentos… enfim, tenho pena de ter que conviver todos os dias com a carga negativa presente na condição humana e - Graças a Deus - , apenas cultivada por uns quantos representantes da raça.
Fala-se muito da perda de valores fundamentais pela sociedade contemporânea, da quebra de poesia da nova “cyber-geração”, da permanente incitação à violência pelos Media e da incultura de uma população sequiosa do voyeurismo dos reality shows – mas será que isto não são apenas reflexos naturais de uma passividade irresponsável de cada um de nós? exercícios de exorcismo individual proporcionados pela facilidade e banalização do apontar o dedo ao outro? escapes de uma multidão de pessoas que não consegue encontrar um rumo na sua vida?
“A paz no Mundo depende de cada um de nós”; “ A caridade começa em casa”; “Não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti” – ensinamentos doutos da sabedoria popular, transformados em lugares-comuns desprovidos de significado e, sobretudo, de interiorização pessoal. É efectivamente mais fácil estar constantemente a queixar-se da situação instalada, da guerra em todo o Mundo, da destruição dos habitats naturais da Terra ou dos jobs for the boys do que tomar uma posição firme, agir de forma actuante ou pura e simplesmente melhorar a nossa atitude e a daqueles que nos rodeiam. Parece ser mais compensador, nos dias de hoje, criticar o comportamento alheio do que tentar reflectir e melhorar o nosso.
Tornámo-nos o ser acrítico - no sentido de incapaz de crítica construtiva -, que assume a maldade, mesquinhez, egoísmo e mediocridade reinantes no colectivo social como características intrínsecas e essenciais à sobrevivência num Mundo cão… em vez de nos elevarmos acima dessa camada dominante de espíritos perdidos na podridão das invejas.
Não quero ser moralista, nem pretendo ser dono e senhor da verdade. Apenas cumpro o meu modesto papel de alguém que de vez em quando se assusta com as atitudes dos homens e que sente uma incontrolável necessidade de partilhar os seus receios. Quero acreditar que muitos, como eu, tropeçam no caminho e querem arranjar a estrada.
A minha maior tristeza é o constatar que também eu, muitas vezes perdido nesta envolvente roda viva, dou por mim a cair no engano de atirar pedras a quem nada fez contra mim, ao invés de guardar essas pedras e construir a minha casinha feita de compreensão, tolerância e plena de sentimentos positivos e emoções criadoras.
A minha maior alegria é o descobrir que existe, dentro de mim, uma réstia de esperança e fé... em mim, nos homens, na sua inerente bondade e na sua capacidade de actuar sobre o seu ambiente humano e social. Resta alimentar esta esperança e pedir a quem me leia que alimente a sua também.
Luca Santorini
18.6.03
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