18.6.03

DUAS VIDAS NUM SEGUNDO

São aproximadamente 20h25. Saio de uma reunião como tantas outras que quase todos os dias tenho. Vou para casa à boleia com um amigo da pós-graduação de Marketing que frequento todas as semanas. Subimos a Avenida Padre Cruz, no Lumiar, caminho que habitualmente tomamos. Uma mota ultrapassa-nos com vontade de chegar a algum lado que desconheço e com a maior brevidade possível – cenário comum no quotidiano desenfreado da cidade. Chega o cruzamento. Em fracções de segundo, a mota desintegra-se, o seu condutor desaparece no ar e vejo uma mulher estendida no chão... inerte... sem vida. O condutor do carro que passou o sinal encarnado chora, com as mãos na cabeça, incrédulo no que acabava de acontecer. Num segundo, todo um conjunto de mundos muda para todo o sempre. Momentos tidos como certos esvaíram-se como fumo.

Apodera-se de mim uma sensação terrível de tristeza assustada – um misto de perda, impotência, medo e revolta. Até este dia assisti de braços cruzados e com a apatia insensível própria da banalidade às notícias que inundam todos os dias os meios de comunicação social a anunciar às centenas e milhares de mortos nas estradas portuguesas. Hoje olhei a morte nos olhos – a 50 metros de mim, 2 pessoas, um homem e uma mulher, com alegrias por viver e muitas coisas por fazer, partiram sem aviso, enquanto piscava os olhos, desejando que fosse mentira. E nem uma mão pude estender.

Eu não conhecia aquelas pessoas, mas a minha alma chorou...

O que mais me assusta é o total alheamento das pessoas com situações destas que se repetem sem fim - grupo no qual me incluía até hoje, confesso. Há sempre justificações irresponsáveis para pequenas transgressões “inofensivas” – ou se conhece bem a zona, ou se tem que chegar a horas senão é o fim do Mundo, ou é o carro que tem potência demais para andar tão devagarinho. E agora pergunto – de que valem essas justificações para este condutor que, inadvertidamente, passou o sinal encarnado?! E como justificar-se perante os dois seres humanos que ficaram sem vida?! E o que dizer às famílias inconsoláveis no seu pranto pasmado?!

No entanto, apesar da revolta perante a estupidez e desnecessidade do sucedido, não consigo, no meio deste nó de angústia, deixar de ter uma enorme compaixão por aquele homem desolado perante o enorme drama que caiu nos seus ombros. Penso no turbilhão de sentimentos de dor aguda que o vão atormentar para o resto da sua vida e fico aflito com a dimensão do choque emocional que sofreu.

Não valia mais a pena ter cuidado a conduzir?! Será que custa assim tanto perder uns minutos para ganhar uma vida inteira?! Apercebam-se bem da relatividade da nossa vida – tudo pode acabar num segundo!

Os acontecimentos que relato são verídicos e passaram-se hoje. Não vão apenas mudar a vida dos envolvidos, mas também, em certa medida, a minha própria vida. Amanhã é outro dia. Outro dia diferente do que teria sido se não tivesse visto o que vi – porque a imagem da tragédia vai permanecer, desfigurada pela erosão do tempo, mas reavivada pelo sentimento de profunda consternação que não vou esquecer. Será, com toda a certeza, um dia mais triste.

Escrevo este texto para pedir a todos os que me lerem que pensem no que acabei de relatar. Para que não acreditem que estas coisas não vos podem acontecer. Não seremos por certo melhores por conseguir escapar ilesos a riscos, maiores ou menores que sejam, mas sim por respeitarmos o Dom da vida e gozarmos a sua finita benção.

Acabo o dia nos braços de quem gosto... outros já não o poderão fazer. E rezo pelos que se foram e pelos que ficam.

Luca Santorini

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