Somos todos os dias confrontados com as limitações com que nascemos. Desde as parangonas dos noticiários que nos fazem questão de lembrar que, a toda a hora, acontecem desgraças e infortúnios que estão totalmente fora do nosso controlo, até às perplexidades que nos momentos mais inesperados da nossa vida pessoal friamente nos ultrapassam na nossa ingenuidade e expectante optimismo na bondade das coisas. Tudo, mas tudo nos indica que, em vez de tentarmos mudar o Mundo Grande que nos rodeia, devemos preocupar-nos com o pequenino mundo cheio de coisas pequenas que fazem o nosso dia-a-dia.
Parece que as pessoas vivem o pouco do tempo que têm a tentar construir castelos no ar, fazer luas de papelão ou atravessar oceanos em jangadas de pedra. Não pensem os mais incautos sonhadores que com o meu discurso tenho qualquer pretensão de acabar de uma vez por todas com a capacidade de sonhar do ser humano – longe de mim, um eterno aventureiro na busca de uma vocação universal de epopeia humana, desligar o interruptor que alimenta a capacidade de traçar metas cada vez mais distantes para a realização pessoal. Apenas deixo a nota de preocupação pela altura da barra de expectativa que nós, meros peões, teimamos em nos impor com rigor e exigência.
Os grandes ideais devem existir e tentar ser conquistados. Foram eles que permitiram que Armstrong deixasse uma bandeira com estrelinhas na Lua e que deram aos afro-americanos a mesma cor, perante a lei, dos seus conterrâneos do Mayflower. Sem eles Mandela ainda veria Joanesburgo aos quadradinhos e Ghandi teria sido condenado ao eterno papel de D. Quixote no imaginário de Cervantes. A força matriz da transformação do Mundo reside na inesgotável capacidade que o homem tem de extrapolar, a todo o instante, os seus próprios limites.
Mas a perspectiva não deve, no meu entender, centrar-se no longínquo ideal distante, mas antes no tangível microcosmos com que todos os dias lidamos. Como quem diz – e que tal se tentássemos agir de forma construtiva sobre as vidas das pessoas com quem lidamos e de quem gostamos, em primeiro lugar, em vez de nos sentirmos frustrados e inuteis por não conseguirmos descobrir os nossos fatos de heróis e salvarmos o Mundo e os humanos, hoje ou amanhã?!
Dirão os mais cépticos e descrentes – mera demagogia; discurso fácil ou facilista; fala-barato que diz mas não faz; profeta das grandes frases; ou até mesmo sonhador. Imagine-se o homem que agora escreve - não sonhes grandes sonhos - apelidado de sonhador!
Serei tudo isso e o que mais quiserem dizer de mim. Mas não sou eu que estou em questão, embora me questione todos os dias. E a única coisa que, no fundo, quero transmitir, é exactamente esta premente necessidade de nos quetionarmos todos os dias sobre o nosso papel de amigos, conselheiros, opinion makers, influenciadores sobre o círculo de pessoas que nos rodeiam e que, por simpatia ou carência ou mera consideração, se dão ao trabalho de nos ouvir e de assimilar alguma da nossa efémera sapiència ou experiência única (porque única é a experiência de cada um de nós). É esta função singular, esta capacidade maravilhosa que nos foi proporcionada (e nunca adquirida por mérito próprio ou conquista pessoal), de conseguirmos projectar a nossa voz para além de nós e, com isso, mudar a vida dos que nos escutam, que devemos, conscientemente, procurar valorizar e orientar, de forma a dar sentido à nossa passagem.
Como em todas as viagens, na vida há sempre uma ida e uma volta. A partida sai de nós e assume a forma de aventura e descoberta de sentidos, emoções, partilhas e conhecimentos. E a volta... bom, a volta depende de cada um. Pois só pode voltar a nós aquilo que fazemos aos outros – cabe-nos a ingrata e ao mesmo tempo digna tarefa de saber pôr os nossos recursos (intelectuais, emocionais, afectivos) à mercê dos outros e à sua capacidade de assimilação e compreensão. Resta-nos esperar que a mensagem seja transmitida, sem nunca desejar retribuição nesta vida.
O sossego da genuinidade com os outros, deverá ser recompensa suficiente para a nossa paz interior, na certeza de que fizémos o que estava ao nosso alcance para mudar, para melhor, o pequeno grande mundo de cada um de nós.
Luca Santorini
18.6.03
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