18.6.03

O MARAVILHOSO MUNDO DOS "SES"

Se ao menos os sentimentos falassem...

Era bom que pudéssemos manter longas conversas com os nossos sentimentos. E que tudo o que nos provoca ansiedades, incertezas, receios e temores, pudesse, de vez em quando, explicar-nos o porquê da sua existência e como os dominar. Seria tão mais fácil para todos – para o próprio, que não andaria numa permanente busca de respostas que tardam em chegar; e para os outros...para os outros que, genuinamente preocupados com o nosso bem-estar, adicionam aos deles os nossos dilemas.

Mas a vida no reino dos “ses” e dos “quem me dera”, apesar de tentadora, acaba por nos afastar do nosso caminho, que deve ser o de confrontação directa com os “senãos” que todos os dias esbarram contra nós; transporta-nos de uma forma alienada para um reino de fantasia onde nos sentimos abrigados e ilesos mas que, na verdade, nos retira toda a noção da realidade com que devemos lidar frontalmente e sem medo, para podermos encontrar-nos.

Podem perguntar-me – mas então isso quer dizer que não devemos sonhar? A resposta é claramente negativa - é obviamente necessário sonhar, porque se o não fosse, o sonho puramente não existiria, não teria razão de ser. Se o sonho existe é porque tem, necessariamente, uma função na nossa vida. O que a minha verdade me diz (enquanto relativa que é a verdade de cada um) é outra coisa – é que devo distinguir o sonho da ilusão, ou seja, não perdendo a capacidade de sonhar, de ter objectivos e metas (porque os caminhos deixam de fazer sentido se não vislumbrarmos uma razão final para caminhar), devo saber reconhecer as armadilhas que a minha mente, por defesa, me mete no caminho para evitar o sofrimento.

É como dizer que se não reconhecermos a realidade ela não nos pode afectar porque, para nós, ela acaba por não existir. Nada mais falso!

A dura realidade da vida apanha-nos a todos ao virar da esquina – aos que a encaram com coragem e aos que fogem dela a todo o tempo. Com uma diferença muito importante – quem a pega de caras vive com um sentimento de satisfação e realização por ter ultrapassado, melhor ou pior, muros; quem a esconde ou procura fugir, passa a vida inteira a correr e a olhar para trás, com medo que, a qualquer momento, a sua própria cobardia o apanhe e lhe abra os olhos para o vazio que já passou.

Mas será que é assim tão duro encarar os nosso problemas e falhas, ou somos nós que fazemos desse caminho uma viagem sinuosa e tortuosa por vermos o acessório e fugaz e não sentirmos plenamente o que de mais puro e verdadeiro pode haver dentro de nós? Os nossos sentimentos. Talvez se passarmos a aceitar os nossos sentimentos na sua plenitude, com o que de bom e de mau isso pode implicar, não tenhamos que passar o resto da nossa vida a tentar perceber, de uma forma racional, o que querem dizer ou como os dominar. A atitude de aceitação, transforma então tudo o que fazemos em actos naturais que apenas são o que são e nada mais.

Chorar quando se tem vontade de chorar; puxar os cabelos e gritar quando o desespero é tão grande que parece não ter fim; rir às gargalhadas quando realmente sentimos que o queremos fazer; fazer luto e vivê-lo com a intensidade que tiver que ser...em vez de tentar perceber e dominar, a todo o tempo, o que de mais intuitivo vem de nós, não seria se calhar má ideia canalizar todo o potencial do sentimento para uma atitude de aceitação que só nos fortalece – “O que não nos mata, torna-nos mais fortes”, já diz a voz do povo na sua sabedoria milenar.

Demagogia? Utopia? Excesso de boas intenções, na prática inalcançáveis? Apenas a realidade de cada um o poderá decidir...mas de uma coisa eu tenho a certeza: é mais fácil e coerente procurar um caminho com a realidade que todos os dias nos é oferecida, do que procurar respostas e atalhos no reino dos “ses” e dos “quem me dera” – este sim, temos a certeza que não existe!

Luca Santorini

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