Já repararam como, em Portugal, toda a gente tem sempre alguma coisa a dizer sobre todo e qualquer assunto?
Ele é o dono do café que fica à porta do meu escritório que invariavelmente se pronuncia, com assumida sapiência, sobre todos os assuntos que os clientes descontraidamemente deixam cair no seu balcão – desde a fuga do Big Laden, até à ditadura do Çadem Uçáin, passando pela estratégia de jogo da Naval frente ao Sporting e pela maçã de censura ao governo do Durão Barroso, que devia era ter ficado no BCTP/NRPP a estudar Mau Ché Tunga.
Ou o taxista que vocifera, com a tez mais vermelha que a bandeira do PCP, contra o Gilberto Madil que foi escolher o preguiçoso daquele brasileiro – o Secalhari – para seleccionador dos portugueses. E como se não bastasse, ainda chamou o Deck, aquele Canarinho do Norte que só sabe dizer –Oi! Tudo legau?!Cumo bai bocê? –para jogar contra o Brasil. Coitado do Luisinho - o Figo! Não há direito! Aquele careca dum...devia era ser mandado de volta pr’á terrinha dele.
Mais delicioso ainda...os arrumadores, que vêm sempre dar uma mãozinha quando o carro já está estacionado. À pergunta – porque é que não vais trabalhar? – têm o desplante de responder, com os poucos dentes que lhes restam: - portantos, quésse dizer! Tá um gajo a fazer um favor, ainda tem que levar cum estes ingratos...dasss!!! a culpa é do gueverno pá! Não arranjam trabalho pá malta!
Depois existem os mentirosos convicentes, que são aqueles que juram, prometem e garantem pela vida da avó (que já morreu há mais ou menos 30 anos) que aquilo que estão a dizer é verdade, a tal ponto que já eles próprios acreditam piamente no que estão a dizer. E, caso estejam a perder a aderência do público mais céptico, lançam logo mão de estudos, estatísticas e pareceres científicos que apoiam as suas teses. Diz o Camané para o Joca:
- Tu sabias que o Saddam Hussein está feito com Israel?
- nããããã...isso é mentira pá!
- Tou-te a dizer, pá! Porque é que pensas que ninguém encontra as armas de destruição massífica? Tão todas escondidas em Belém! Ah, pois é!
- Mas ca ganda treta que te pregaram!
- Ouve lá! Tás-me a chamar mentiroso?! Juro-te pá! Ainda no outro dia vi um documentário em que o Sharon, o mister lá dos judeus, se descaiu e disse isto...
- pois, pois...em que canal é que viste isso? Na SIC Radical, não? Isso era mas era o Cabaré da Coxa e tu caíste que nem um patinho!
- Não foi nada meu!!! Foi no Canal História, pá! Aquele canal da cabo sobre a actualidade...xiça, c’o gajo é teimoso!
Também gosto muito dos espertalhufos a posteriori. Está uma discussão acesa sobre determinado tema – é indiferente qual o tema, pois o comportamento destas criaturas é sempre o mesmo – e todos os participantes falam alto, atropelam-se e têm alguma coisa a dizer. Menos um. Pois é! é o espertalhufo que espera que a conversa chegue à conclusão, altura em que, com eloquência diz: Eu já sabia desde o início! Por isso é que não disse nada – não valia a pena discutir! Era óbvio, pá! Esta é uma raça perigosa, pois embora não diga nada de jeito sobre tema algum, dá a entender que sabe tudo e pode enganar alguém mais distraído.
Outra categoria muito interessante é a dos eternos substitutos ou treinadores de bancada. Este será, muito provavelmente, o mais numeroso grupo de sabichões. A sua frase preferida é – Se fosse eu...!. Gostam de se alojar em bancadas de estádios de futebol, em frente à televisão na hora dos telejornais e debates parlamentares ou na Tasca do Manel à frente dum copo de vinho ou de uma sopa de cavalo cansado (é indiferente! desde que se beba...). Têm a particularidade de estarem sempre em desacordo com seja o que for, nem que seja uma posição que defendiam há exactamente...1 minuto e 15 segundos atrás.
É caso para dizer: - Caro Amigo! se és português, treinador de bancada e tens mais de 18 anos seguidos de razão em todos os assuntos, junta-te à carreira política e torna-te um fanfarrão bem pago e com notoriedade!
E é assim que andam as coisas neste recanto à beira-mar plantado...se calhar era de reunir todos estes espécimes para o Parlamento Europeu para resolverem a crise. Vai que não vai, faziam melhor do que os que lá estão!
E com esta me fico...
Luca Santorini
18.6.03
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