Será possível existirem pessoas que se sintam compensadas e gratificadas pelo simples facto de poderem dominar outras? Será imaginável o abuso de poder e o aproveitamento de sentimentos de temor reverencial por puro exercício insensível de autoridade? Será para os leitores imaginável uma situação de exploração do ser humano preso à nobre sina de sustentar uma família? A resposta é, infelizmente, sim, sim, sim.
Quem não assiste no seu dia-a-dia a uma das situações acima descritas?! seja no trabalho, em que o Director confiante na superioridade da sua posição pede ao subordinado que acabe o seu “trabalhinho” ainda hoje ( e a família que espere..); ou um qualquer elemento de uma autoridade pública que, de carimbo na mão, imponha atalhos de burocracia tortuosa aos subjugados cidadãos sem alternativas; seja até qualquer um dos nossos amigos ou conhecidos que tenha perante qualquer outro um ascendente de fascínio e que disso se aproveite para alimentar o seu ego faminto.
Todos estes cenários se baseiam na mesma triste realidade – o Homem tem tendência a não saber lidar com o poder e com a posição de “superioridade” (efémera e ilusória) que ele implica. É o eterno desvio da liberdade do Homem: o ter a possibilidade de escolher um caminho e insistentemente optar pelo mais limitador – o caminho da exibição frenética de um poder que, como todas as realidades da vida, é relativo.
Na verdade, com qualquer posição de autoridade ou ascendente, vem sempre uma carga de responsabilidade acrescida; o dever humano de exercê-la com moderação e respeito pela individualidade e valores de quem se situa no “patamar inferior”; a obrigação de tentar agir com a preocupação e a sensibilidade que se exigiria a outrém em situação inversa.
È muito fácil para qualquer pessoa esquecer que, mais tarde ou mais cedo, a mão que hoje dá alimento pode bem ser a que amanhã lhe dará de comer. Quanto mais não seja por precaução e alguma dose de egoísmo, os chefes, governantes e poderosos deste Mundo devem ter o cuidado de tratar os seus iguais com a dignidade que procuram para si mesmos.
Esta elementar regra de convivência e humanidade continua, â medida que vou escrevendo, a ser transgredida, ignorada e por vezes enxovalhada. Haverá sempre um qualquer tirano em qualquer parte deste cada vez mais pequeno Planeta cheio de pessoas “pequenas”. Mas isto não quer dizer que tenhamos que nos conformar com isso e confortavelmente cruzar os braços à impune subjugação.
Aos “encurralados” que, como eu próprio já algumas vezes fiz, se refugiam entre a espada e a parede, uma palavra de ânimo – meus amigos, não se tornem o que odeiam e combatam as submissões com a força das vossa convicções! Acreditem nas vossas capacidades e no vosso próprio poder de resposta. A quem vos ataca, esfola, abusa ou injuria, mostrem a força da vossa dignidade e tomem as rédeas dos acontecimentos que fazem as vossas vidas.
Aos dominadores abusivos, gente de fraca personalidade, relembro que um dia podem ser vocês. Porque é que não começam a evitar a vossa fatal prestação de contas e deixam que a força criativa e produtiva que o poder pode ter se liberte das amarras da tacanhez?!
Luca Santorini
18.6.03
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