18.6.03

A TERAPIA DO TUDO DIZER

Quantas vezes não dou por mim a questionar-me - “mas porque é que eu não disse isto?! e porque é que não disse aquilo?!”. Nessas alturas, a angústia toma-me de assalto, massacrando-me insistentemente a consciência (ou relembrando-me que a tenho), até ao ponto do alheamento – aquele momento indefinido em que, atropelado pela azáfama dos acontecimentos, o meu “alter ego” desiste de mim e, baixando os braços, espera por outra oportunidade.

Mais tarde, às vezes passados uns dias, outras uns anos, apercebo-me, com uma tristeza arrependida, do óbvio – as oportunidades, afinal, não estão nas minhas pretensamente auto-suficientes mãos.

É o conjunto de todos esses momentos certos, perdidos por teimosia, orgulho ou por outro qualquer sentimento que nos “defende” de algo que nem nós sabemos bem o que é que, esporádica e incisivamente, me lembra que ainda estou longe de ser feliz, porque podia ter feito bastante mais.

Todos nós vivemos, quer queiramos, quer não, em função dos outros – daqueles que nos são mais próximos, dos que conhecemos de raspão e ao de leve no alvoroço do dia-a-dia e até dos que, no frio anonimato, se cruzam sem querer nos nossos caminhos. É uma realidade que não depende de qualquer credo ou religião e que é inerente à própria condição humana. Para que possamos verdadeiramente conviver temos de comunicar e o nosso instrumento preferencial de comunicação é a fala, que mais não é do que a verbalização da alma. Quando a alma não se consegue exprimir porque não quer, ou não a deixam, perde a sua plenitude porque não se relaciona de uma forma integral.

Não devemos, pois, deixar que o cliché “eu devia ter dito…” se torne uma realidade nas nossas vidas. Se assim acontecer, estamos a ser vencidos pela inércia e amputamos lentamente a oportunidade de sermos felizes, tomando a vida nas nossas mãos.

Digamos, pois, às pessoas de quem gostamos que delas gostamos, àquelas que precisam de uma palavra amiga demos um simples conforto e a outras que nos atormentam, manifestemos o nosso descontentamento; e, assim, deixemos voar as palavras que nos saem do coração, mas sempre com o sentido da verdadeira liberdade – aquela que se preocupa com os outros, aquela que é sensível às sensibilidades, aquela que se adequa a cada interlocutor, sem perder a sinceridade e espontaneidade próprias do ser genuíno.

Dizer uma palavra à pessoa certa ou na altura certa pode ser uma verdadeira terapia – a terapia da coerência, a terapia do bem-estar e da felicidade. Não perca a oportunidade e dê asas à sua alma; porque tudo dizendo, nada ficará por dizer. E a paz estará mesmo ao seu lado…

Luca Santorini

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