18.6.03

UMA AVENTURA NO CINEMA

Quando eu tinha 14 anos, ir ao cinema era uma oportunidade única de passar 2 horas sozinho com uma rapariga às escuras, sem ter os paizinhos a controlar. As artimanhas que eu inventava para poder disfrutar desta fantasia eram tais que cheguei a ir ver um filme do Kurosawa, daqueles filmes que dão razão de ser à palavra tédio e que quando terminam deixam uma plateia inteira pálida, com problemas de circulação, por terem estado sentadas aproximadamente 4 horas e meia na mesma posição. Mas eu não! contorcia-me, punha a mão à volta do ombro dela, tocava ao de leve nos dedos da minha presa, susurrava-lhe ao ouvido e, se tivesse muita sorte, ainda conseguia vislumbrar alguma coisinha por entre o último botão da camisa aos quadradinhos com colarinhos para cima e o lencinho que invariavelmente todas usavam ao pescoço.

Era uma verdadeira emoção e raramente me lembrava da história do filme. Isto era especialmente embaraçoso quando a minha companheira de sessão me perguntava se tinha gostado daquela cena em que a heroína tinha sido salva pelo mau da fita, ao que eu, pequeno projecto de homem, respondia convicto: Pois! aaaaa... claro que sim! foi lindo!

Os anos foram passando e hoje ir ao cinema já não é um acto fútil. Não. Ir ao cinema significa poder sorver todas as palavras de um filme, absorver a banda sonora, apreciar as interpretações ou captar a essência do enredo, sem ter que pensar na porcaria de semana que tivemos antes e naquela coisa que é tão mal vista que será provavelmente a única que nos pagam para fazer: o trabalho!

O ritual começa com a entrada na sala de cinema. Damos os bilhetes aos arrumadores, que a 300 à hora nos deixam constantemente para trás. Sentamo-nos 5 minutos antes, como convém, e falamos com o nosso parceiro, a ouvir o som de fundo das pessoas a falar sobre o cabelo da fulana tal ou sobre o malandro do Zé Manel que fugiu com a manicure da mulher para Freixo de Espada à Cinta. Espero que sejam muito felizes....

O ideal seria que todos os lugares à nossa volta estivessem vazios. Que imagem maravilhosa! Nem uma única pessoa a dar pequenas gargalhadinhas ao nosso ouvido ou a pontapear repetidamente o nosso costado. Mas não! Vou-vos descrever o que se passou comigo e uma amiga especial neste Domingo.

As luzes apagam, o ecrã pede gentilmente que os espectadores desliguem os telemóveis e, 5 segundos depois de começarem a passar imagens de outros filmes em exibição, senta-se ao nosso lado um casaleco com 4 pacotes Mega-hiper-extra de pipocas e duas Coca-Colas advantage com 3 palhinhas cada, daquelas de deixar o McDonald’s na categoria de comida dietética. Está tudo estragado!

Começa o filme e sinto uma mão felpuda no meu ombro esquerdo. Eis senão quando dou por mim a ter que pedir ao cavalheiro sentado dois lugares à esquerda para retirar sua manápula do meu ombro e a deixar cair no ombro direito da sua namoradinha. Tenho aquela sensação angustiante de estar rodeado de criaturas estranhas. O que vale é que ao menos não tenho ninguém à minha frente!

Já incomodado pela situação e a pressentir o início de uma noite muito comprida, descanso finalmente um pouco e presto atenção ao filme. Mas quando a esmola é muita o pobre desconfia! Mal acabo de assistir aos primeiros 5 minutos de filme seguidos, do canto direito do olho direito vejo um senhor de 2 metros a aproximar-se da fila à frente da minha, de mão dada com uma acompanhante. Depois de levantarem uma fila inteira e tropeçarem em praticamente todos os seus vizinhos, finalmente sentam-se. E onde?! CLARO! Nos dois lugares vazios que estavam à minha frente!

Dou graças a Deus porque, ao menos, o senhor sentou-se mesmo em frente à namoradinha com a mão no ombro que estava ao meu lado esquerdo. E à minha frente sentou-se a acompanhante que ... não! não é possível! Mas quem é que namora uma mulher que resolveu fazer um penteado afro de estilo revivalista com uma largura de um Prestige e a altura da torre de Pizza?!

Conformado com o stress da noite que inicialmente pensei que seria de lazer descansado, não desisto e volto a concentrar-me no filme, entre saltinhos ora para a direita, ora para a esquerda, por entre o pinheiro de Natal e o jogador de Basquete.

Sou interrompido por um estranho “reco-reco” bem perto do meu tímpano esquerdo, logo seguido de um chupar líquido parecido com um aspirador industrial a fazer o servicinho... mas numa piscina! Quando olho para ver o que era, nem vos consigo bem descrever o cenário! O famoso casaleco – que entretanto já tinha distribuído algumas pipocas pelos vizinhos – com as caras enfiadas nos baldes de pipocas, abriam bem as boquinhas para partilharem devidamente o seu bolo alimentar. Logo de seguida, a namoradinha, com um ar delicado e ingénuo, enfia 3 palhinhas pela traqueia e, de golada, sorve metade da Coca-cola, após o que deixa escapar uma leve concentração gasosa pela sua generosa bocarra! Assim não dá! – penso desesperado.

Já com os nervos em franja, mas decidido a fazer valer o dinheiro que gastei no bilhete, aperto com força a mão da minha parceira – que quase ficou sem dedos – e insisto em abstrair-me daquele jardim zoológico.

Chega a parte do filme mais emocionante em que o drama é desvendado e em que o actor principal, numa representação soberba e trágica, se declara dramaticamente à protagonista. E não é que, quando toda a plateia retinha a respiração, comovida com o momento, solta-se uma ruidosa gargalhada do banco exactamente atrás do meu (por acaso, o senhor que meia hora antes tinha dito Santinho a um espirro vindo de uma senhora sentada 10 filas à frente) e que quase me salta o coração do peito?

Esta foi a gota de água! Visivelmente irritado, viro-me para trás e digo: - Se não se importa, eu gostava de ver o resto do filme sem ter que levar com os seus ataques de riso, principalmente quando a cena não tem graça nenhuma!!!

A partir daí, não me lembro de mais nada. Acordei à porta do Monumental, com a camisa cheia de sangue e, pelo olho inchado e semi-cerrado, ainda vi a minha parceira aos berros a dizer que eu lhe tinha estragado a noite e que não queria mais nada comigo.

Em resumo: gastei o dinheiro de 2 bilhetes, não vi o filme, fiquei à beira de um esgotamento nervoso, levei uma sova, a minha futura namorada partiu para outra e... não fui trabalhar no dia seguinte porque não me conseguia mexer.

Tudo isto me leva a pensar que o cinema já não é. meus amigos, a 7ª Arte, mas sim a 14ª ou 15ª. Logo a seguir à Arte de bem ruminar pipocas, à Arte de bem sorver líquidos gasosos, à Arte de assediar vizinhos de fila, à Arte de fazer questão de se fazer ouvir e, last but not the least, à famosa Arte de se estar perfeitamente nas tintas para quem está à sua volta, tão típica dos portugueses.

O meu conselho é, pois, o seguinte: se querem ir ao cinema, comprem um DVD com Dolby Surround e um mega-ecrá de plasma. Depois, só convidem pessoas discretas, ofereçam-lhes um cozido à portuguesa antes e escondam a máquina de pipocas e o frigorífico.

E viva o cinema!

Luca Santorini

Sem comentários: