5.7.04

A GENEROSIDADE DO SILÊNCIO

Dedicado ao caracol...

Escrevo muito sobre a palavra e a sua força na conformação e orientação das vidas de cada um de nós. A influência das entoações, a subtileza marcante das meias palavras, o jogo complexo do olhar a acompanhar o conteúdo do que se diz. Todas as formas e formatos com que, enfim, moldamos as mensagens que, a todo o tempo, queremos transmitir aos que nos rodeiam.

Mas a versatilidade da palavra também faz com que ela seja não só um veículo de comunicação, uma manifestação mais ou menos clara dos nossos sentimentos e reflexões, mas também, muitas vezes, um elemento de ruído, voluntário ou não.

Quantas vezes não constatamos não conseguir, mesmo por escrito, exprimir a intensidade dos nossos sentimentos, a interpretação que queremos passar a outro ou o próprio contexto interior que nos leva a dizer aquela palavra, naquele minuto, àquela pessoa?! é normal que isso aconteça, pois as palavras contém em si múltiplas possibilidades e entendimentos; e nós, humanos como somos, não temos (a maior parte das vezes) a capacidade e a rapidez suficientes para utilizar as palavras que, para o nosso interlocutor, seriam as mais adequadas ou indicadas à global compreensão daquilo que queremos dizer. É nestas situações que, involuntariamente, complicamos mais ao tentar dizer qualquer coisa do que se estivéssemos calados.

Noutros casos, consciente e propositadamente utilizamos as palavras ao nosso serviço para, com objectivos variados, levar as pessoas que nos ouvem ou lêem a perceberem uma mensagem que não corresponde aos nossos pensamentos e/ou sentimentos mais sinceros. Nestes casos, a palavra é utilizada para confundir, iludir, para defender uma posição ou para causar determinado tipo de impacto. Desvirtua-se o sentido mais puro da palavra enquanto veículo de comunicação para se lhe atribuir uma função de contra-informação, infelizmente tão presente e praticada na sociedade moderna.

Mas há uma expressão de comunicação à qual não é muitas vezes dada a atenção e consideração devidas - a ausência da palavra. O silêncio!

A maior parte das pessoas sente uma necessidade incontrolável de falar (ou de se ouvir), de dar uma opinião, de exprimir um sentimento através das palavras. Como se o mundo fosse ficar muito pior se não houver uma palavra a dizer. Esta maior fatia de pessoas sentem-se, em contraposição, bastante incomodadas com o silêncio, porque não sabem lidar com ele, porque as assusta ou porque, pura e simplesmente, não entendem a sua força e o seu poder.

Hoje aprendi que o silêncio pode trazer consigo uma grande intenção de generosidade e consideração pelo próximo. Uma pessoa especial mostrou-me que o perder de uma forma definitiva o contacto com uma pessoa de quem se gostou muito ou que teve um papel importante na nossa vida pode não significar necessariamente um egoísmo,ou uma tentativa de não prolongar uma situação que é dolorosa ou que, pura e simplesmente, não nos traz nenhum conforto. O silêncio, a ausência esclarecida das palavras pode ser antes uma forma de evitar o sofrimento alheio, por consideração a essa pessoa. Se, com esta ausência ou aquele silêncio, procurarmos evitar que alguém prolongue na prática uma situação que já só existe dentro da sua cabeça ou no mais íntimo dos seus desejos, aí estaremos a respeitar o próximo. A procurar que ele não se magoe mais...

Uma das coisas boas que a vida nos oferece é esta troca de ideias e percepções. Só com elas podemos evoluir ou, pura e simplesmente, alargar horizontes.

A minha conclusão final desta pequena reflexão é que tudo na vida tem mais do que um caminho possível e viável. Cada opção que fazemos em determinado momento, condiciona a vida dos demais. Por essa mesma razão e pela força das palavras e da sua ausência, temos que ponderar bem antes de usar uma ou outra. Se queremos realmente respeitar o próximo e conviver com um verdadeiro sentido de diversidade, devemos procurar sempre adequar as nossas palavras (ou a sua ausência)ao concreto interlocutor em cada minuto.

Obrigado ao caracol, que é paciente no seu caminho mas, talves por isso mesmo, sábio nos seus pensamentos...

Luca Santorini

30.4.04

O HOMEM E AS ILHAS

As Ilhas são pedaços de terra isolados de tudo e todos por um pedaço de mar. Como os homens. Isolados por opção ou fatalidade. Opção, no caso dos Homens, fatalidade no das Ilhas.

As Ilhas, porém, encontram o seu ponto de equilíbrio. Mantêm-se firmes até à próxima fatalidade, aceitando renegadamente a sua posição destinada. O Homem, pelo contrário, tem ao mesmo tempo o dom e a sina de poder vacilar, alterar, mudar, transformar...

O dom permite a mudança dos ventos a favor da vontade última e intrínseca do querer mudar.

A sina mantém aquilo que de constante tem apenas a permanente instabilidade. Pois nenhum estado de alma é, por definição, inalterável. E, como tal, tem sempre uma dose de incontrolável devaneio ao sabor do sentimento.

È isto que nos distingue daa ilhas. Os ventos destas abanam mas não deslocam. Os nossos ventos fazem-nos balançar entre o gélido Antártico e o devassador deserto tórrido.

Esta tentadora liberdade de podermos, a todo o momento, decidir onde queremos estar, conjugada com a indomabilidade dos nossos impulsos e sentimentos, torna-nos criaturas especiais. Que têm o poder para tudo e não podem nada. Ou acham que não podem!

Mas este ser especial, esta consciência de domínio dos nossos desígnios, sendo a chave de todas as nossas buscas e questões é, simultaneamente, a nossa maior limitação – custa-nos acreditar no nosso próprio poder de conformar a vida ao sabor dos nosso impulsos. Porquê? Porque nos custa aceitar a responsabilidade inerente ao facto de tomar opções. Quem decide, tem que viver com as consequências. E, aí, o medo de sofrer fala mais alto. O nosso maior poder acaba, pois, por ser a nossa maior limitação.

E, por isso, acabamos por não ser muito diferentes destas Ilhas. Acabamos por ser vítimas de uma posição geo-sentimental que nós próprios determinamos ser inalterável. E vivemos como Ilhas a maior parte da nossa vida.

Luca Santorini