As Ilhas são pedaços de terra isolados de tudo e todos por um pedaço de mar. Como os homens. Isolados por opção ou fatalidade. Opção, no caso dos Homens, fatalidade no das Ilhas.
As Ilhas, porém, encontram o seu ponto de equilíbrio. Mantêm-se firmes até à próxima fatalidade, aceitando renegadamente a sua posição destinada. O Homem, pelo contrário, tem ao mesmo tempo o dom e a sina de poder vacilar, alterar, mudar, transformar...
O dom permite a mudança dos ventos a favor da vontade última e intrínseca do querer mudar.
A sina mantém aquilo que de constante tem apenas a permanente instabilidade. Pois nenhum estado de alma é, por definição, inalterável. E, como tal, tem sempre uma dose de incontrolável devaneio ao sabor do sentimento.
È isto que nos distingue daa ilhas. Os ventos destas abanam mas não deslocam. Os nossos ventos fazem-nos balançar entre o gélido Antártico e o devassador deserto tórrido.
Esta tentadora liberdade de podermos, a todo o momento, decidir onde queremos estar, conjugada com a indomabilidade dos nossos impulsos e sentimentos, torna-nos criaturas especiais. Que têm o poder para tudo e não podem nada. Ou acham que não podem!
Mas este ser especial, esta consciência de domínio dos nossos desígnios, sendo a chave de todas as nossas buscas e questões é, simultaneamente, a nossa maior limitação – custa-nos acreditar no nosso próprio poder de conformar a vida ao sabor dos nosso impulsos. Porquê? Porque nos custa aceitar a responsabilidade inerente ao facto de tomar opções. Quem decide, tem que viver com as consequências. E, aí, o medo de sofrer fala mais alto. O nosso maior poder acaba, pois, por ser a nossa maior limitação.
E, por isso, acabamos por não ser muito diferentes destas Ilhas. Acabamos por ser vítimas de uma posição geo-sentimental que nós próprios determinamos ser inalterável. E vivemos como Ilhas a maior parte da nossa vida.
Luca Santorini
30.4.04
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