18.6.03

O SONHO ESQUECIDO

Quando era mais pequeno, lembro-me de sonhar que podia fazer tudo o que me apetecesse, sem quaisquer limites ou fronteiras. Podia navegar por esses mares fora e procurar as Terras Novas das Descobertas, qual Gama ou Bartolomeu; era animal e desenho animado, representação abstracta ou objecto; voava como o Super-Homem e subia arranha-céus com teias que eram tão facilmente projectadas pela minha imaginação.

Quando eu era mais pequeno, lembro-me de sonhar.

Os anos passaram a uma velocidade estonteante e já não me lembro de sonhar – pelo menos não como dantes! Os mares outrora por navegar são agora correntes perigosas que nos podem levar sabe lá Deus para que destino e com que qualidade de vida; distingo-me claramente dos animais, porque sei que sou muito mais inteligente do que os pobres bichos (será que sou mesmo?!); o único objecto que concebo ser é o das doces seduções femininas e, mesmo aí, com muita masculinidade; o Super-Homem é para as crianças. E as teias?! só se forem as do enredo complicado e duro da vida. E agora perguntam-me: Como é que te tornaste tão sem graça?

Pois é! nem eu sei e, se querem saber, duvido que haja alguém que possa dizer que sabe por que razão perde as inocentes ilusões de infância. São fenómenos que vão acontecendo ao longo dos tropeções que damos e resultam do pasmo constatado perante a seriedade obstinada com que os adultos teimam em encarar os factos da vida.

Ó fatalidade enganadora! Os factos da vida são o que deles fazemos e nada mais do que isso – não há dramas maiores por virtude da idade; há é pessoas de espírito envelhecido, que perdem a fé nas pequenas insignificâncias tão bonitas da vida. Os jovens adolescentes também sentem os seus problemas com uma carga dramática que, por vezes, roça os contornos de uma telenovela Venezuelana de 2ª categoria – mas com a diferença de continuarem a viver o sonho bonito de virem a ser adultos um bocadinho diferentes dos seus pais.

Não me interprete mal o leitor! Não me acho assim tão enfadonho, nem deixo de estar convencido que a maioria das pessoas adultas continuam a ter os seus sonhos e as suas alegrias – o único problema, a meu ver, é que os sonhos são rapidamente apagados por falsos preconceitos de barreiras invisíveis e as alegrias não são devidamente apreciadas na sua plenitude. Por incrível que possa parecer, quando o Homem tem um momento alegre, o primeiro pensamento que o atormenta é – isto é felicidade a mais! O que é que virá a seguir?

Quando se diz, pois, que os adultos perderam a capacidade de sonhar, não subscrevo inteiramente estas palavras. O que sinto é que perderam a capacidade de acreditar que a concretização do sonho pode acontecer e só depende, na maior parte dos casos, do próprio sonhador. Será que, afinal, sou um sonhador? Deixo ao julgamento do leitor.

E porque é que é bom sonhar? Não vale mais a pena ser realista e aceitar as nossa limitações, para a queda não ser maior? meus amigos! sonhar é bom exactamente porque transcende as nossa limitações temporais e físicas; sonhar é bom porque nos lembra que há mais qualquer coisa para lá das nossas rotinas de vida; sonhar é bom porque somos nós a sermos quem queremos, onde queremos, com quem queremos e quando quisermos – querem maior sensação de liberdade? Quanto ao medo da queda... lembrem-se que o máximo que pode acontecer é ficarem exactamente onde estão agora.

Acordar do sonambulismo da realidade para o suave vôo do sonho não custa mais do que a nossa vontade. É um pequeno passo para uma satisfação pessoal sem medida – pois quem lutar pelos seu sonhos e conseguir alcançá-los, jamais se libertará da emoção da conquista, da alegria de cortar a meta.

Agora já me lembro de sonhar... o meu sonho é escrever, sem limites e sem medo. Pode ser que alguém me oiça e sonhe também!

Luca Santorini

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